Monday, May 13, 2013

Para se falar de socialismo nacional


Não faz muito tempo que me contaram sobre uma seguinte gafe encontrada em redes sociais, que achei que seria um tema interessante de se comentar: 

'Mas você é instruído o suficiente para discutir isso socialismo nacional comigo?'

O tema do socialismo nacional - mais conhecido como nazismo - é delicado, pode acabar se tornando ofensivo para muita gente, e sim, é necessário um mínimo de conhecimento para ser discutido. Obviamente a pessoa não pode ser uma total ignorante no assunto, o que talvez até dê razão para essa primeira parte da gafe... mas como se julgar alguém que nem conhece se ele é ou não experiente o suficiente pra discutir esse tema?

A gafe acima seria apenas prepotente, não fosse sua continuação: 'Só digo que todo extremismo é ruim' (numa paráfrase mais leve). A afirmação não é de todo falsa, mas é, no entanto, a resposta padrão: 'tudo que mata gente, que discrima, que é ditadura é ruim'. A afirmação é portanto incrivelmente superficial e soa como desculpa de alguém que quer fingir e mostrar que sabe mas, por não saber absolutamente nada, se esconde atrás do argumento de que o outro não é 'estudado' o suficiente para discutir e, portanto, já se coloca acima da pessoa sem precisar discutir nada em profundidade com ela. Ou seja... seria a pessoa que duvidou da instrução do outro realmente preparada pra discutir alguma opinião sobre socialismo nacional?

Eu diria que absolutamente, não. 

Outro argumento muito usado pra quem quer esconder ignorância é 'fazia sentido pro contexto da época'. 

Em história, TUDO acontece por causa de um contexto e tudo vai sim fazer algum sentido dentro dele. É a lei mais básica de quem realmente quer estudar história e não só decorar um monte de datas, nomes e fatos soltos. Entender as causas e conseqüências é necessário para se entender o contexto, e dizer que 'o contexto fazia sentido' não afirma, de forma alguma, que a pessoa sequer saiba que contexto é esse. A revolução francesa, revolução russa, chinesa, a guerra civil no Japão, os conflitos na Alemanha dividida, a queda do Império Romano, tudo isso fazia sentido pro contexto e dizer isso não atesta conhecimento histórico.

Hiperinflação da época da República de Weimar
Mas vamos lá - o que faz uma pessoa instruída o suficiente para se discutir o nazismo?

Eu diria um conhecimento mínimo de história alemã desde pelo menos a unificação - saber a data da unificação é sempre bom, e dica, não foi no meio da idade média muito menos na época do Rococo na França e apenas na França - até a reunificação das Alemanhas oriental e ocidental; conhecimento sobre a primeira guerra, tratado de Versailles, sobre a mentalidade alemã desde antes da primeira guerra começar; e obviamente, ao menos um curso ou um livro lido sobre a ascensão e queda do terceiro Reich. Até Wikipedia tá valendo, apesar de ser Wikipedia, sério. Apenas tome uma pequena parcela de seu tempo pra ler algo de conteúdo.

Mas o mais importante, eu diria? Bom senso. Ter noção de que sair postando citações de Hitler por aí, enfiando suásticas em tudo que é lugar, fotos de nazistas a torto e a direito e ficar o tempo todo falando como sabe disso pode não só ofender alguém, como atestar ignorância nível criança de quinta série que resolve comprar todo o material escolar temático de um desenho animado. Aliás, mentir que fala ou até falar alemão perfeito também não faz de ninguém um especialista em nazismo - por muito tempo, até os próprios alemães não sabiam o que era o nazismo tamanho o esforço dos novos governos de esconder os fatos da nova geração. Na Alemanha comunista, por exemplo, nunca nada se foi dito das mortes de judeus - o foco sempre era nos assassinatos dos comunistas, como se tivessem sido as únicas vítimas. Os maiores monumentos em homenagem às vítimas do holocausto foram construídos pós-reunificação, como o Memorial aos Judeus Mortos da Europa do Eisenman ou o Museu Judaico do Liebeskind, na década de 90 e em 2000 e tantos, quando finalmente se ganhou a noção de que para que algo não se repita na história, é necessário nos lembrarmos do horror que foi, e não empurrar pra debaixo do tapete.


O memorial de Peter Eisenman em Berlin

E como toda a ideologia, o nazismo não foi apenas um 'vamos matar todo mundo de quem não gostamos no mundo', como muita gente costuma simplificar, assim como comunismo não foi bem um 'vamos ser todos iguais e felizes'. O comunismo na China e atrás da cortina de Ferro deixou dezenas de vezes mais mortos do que os nazistas, por mais que hoje em dia muitos universitários metidos a revolucionários achem a melhor coisa do mundo se esquecendo de como Mao Tse Tung tentou matar todos os professores da China para sua igualdade intelectual nivelada por baixo, ou como os russos reusaram o campo de Sachsenhausen por 5 anos após o final da guerra. E o nazismo não começou, amplamente, como uma ideologia de genocídio, apesar de que a idéia já estava na cabeça dos grandões do partido - isso obviamente iria impedir que os nazistas, e por conseqüência Adolf Hitler, conseguissem subir ao poder sem interferir (muito) nas votações para chanceler. Os ataques aos judeus começaram apenas algum tempo depois que o partido subiu, primeiro com leis de casamento e cidadania, depois com boicotes e com a Noite dos Cristais em 1938. Isso quer dizer que eram bonzinhos no começo? Não. Quer dizer, na verdade, que sabiam muito bem os argumentos a serem usados com uma população que se sentia vítima do governo da República de Weimar por Hitler sempre ter se visto como vítima também, fosse do pai, dos empregadores, e dos judeus. De onde tirei isso? Está escrito em Mein Kampf, do qual ainda apenas li uma primeira parte, mas foi o suficiente para saber que esse cara tinha alguns probleminhas e complexos (e tiques nervosos) que Albert Speer descreve claramente no próprio livro. Muitos ganham a impressão de Hitler como uma pessoa carismática em seus discursos, raivosa, sempre atuando em sua carreira política atrás da exterminação dos judeus, quando na verdade, por trás das cortinas, ele é descrito por muitos como uma pessoa entediante e cheia de manias. Obviamente, como qualquer pessoa com problemas, ele tinha seus surtos de raiva e ataques nervosos, mas o que mais se fala dele - pelo menos da perspectiva do Speer - é que era uma pessoa pouquíssimo qualificada, até meio bipolar, e muitíssimo influenciável. Os nazistas começaram ganhando a guerra porque pegavam os aliados de surpresa, mas não por planejamento tático - mas sim porque Hitler era tão inexperiente, que as ordens que dava ao exército não faziam o menor sentido, causando, portanto, uma confusão no começo, e uma derrota esmagadora no final, uma vez que os aliados finalmente notaram que tudo aquilo era pura falta de planejamento de um amador.

Alguém vai pensar duas vezes antes de sair citando Hitler em redes sociais agora, não é?




Uma outra mania de gente que gosta de se mostrar especialista em nazis é a insistência em criar personagens-fetiche por causa dos uniformes, ou por causa dessa 'essência do mal' que é vista em praticamente todas as discussões de nazismo, superficiais ou não. Muitos até se fixam nessa coisa de homossexualismo entre oficiais, e uma diquinha que alguns esquecem? Os nazistas matavam os homossexuais a sangue frio como faziam com doentes mentais e aleijados, e dificilmente imagino que oficiais do alto escalão se arriscassem a realizar essas práticas - rolava muita, mas muita mesmo, espionagem (pra não dizer fofoca de lavadeira) interna dentro dos prédios administrativos entre cada membro do partido com a finalidade de se conhecer segredos uns dos outros para, assim, conseguirem mais status e favores do Führer. Quem já ouviu falar no Martin Bormann talvez saiba também como ele caçava por falhas dos outros e era um dos maiores manipuladores dedo-duro ali no meio, fazendo o velho se voltar até contra alguns dos favoritos como Göbbels, Göring, Himmler e o quase inofensivo Speer. Portanto, por mais que esse tipo de coisa possa rolar em trincheiras com soldados desesperados que não vêem mulheres há meses ou anos... não era tão comum assim entre o alto escalão, e muito menos algo 'legal' ou 'estiloso'. Alguém se lembra que Ernst Röhm era um dos grandões e foi executado  por Himmler, seu próprio amigo de adolescência, em parte por ser homossexual? Pois é. A seita Sol Negro de Heinrich Himmler muito menos era fonte desse tipo de coisa, por mais cretino que o nome possa parecer...

Heinrich Himmler e muitos SS de uniforme...


A coisa é: gente que se mete a falar de nazismo sem conhecer o básico ou ter um mínimo de bom senso não tem direito de julgar quem é ou não instruído o suficiente pra discutir o tema. Até hoje existem pessoas que lembram de parentes que morreram nas câmaras de gás ou nos campos de trabalho. Uma amiga pessoal da minha mãe ouviu histórias sobre o sofrimento da própria mãe, sobre irmãos e tios que morreram, e uma professora minha morre de medo de colocar os pés na Alemanha não importando o quanto digam que hoje é o lugar mais tranquilo que existe para judeus. Portanto, pense muito, mas muito bem antes de ir falar pro mundo que é um especialista em nazismo, que é alemão de nascença (cof), ou que sabe falar alemão perfeito enquanto ainda não sabe nem sequer usar vírgulas com a própria língua materna. É um assunto delicado, e se sair explorando isso sem conhecimento ou cuidado, pode-se não apenas ofender alguém, como atestar ao mundo o altíssimo nível da própria ignorância. 

O tema Segunda Guerra Mundial me interessa muitíssimo e eu tenho uma curiosidade grande tanto pela Alemanha quanto pela Rússia, o que me leva a ler sobre o assunto. Não me acho nenhuma grande especialista, pelo contrário - ainda há dezenas de livros sobre o tema que comprei, mas não pude ler ainda. Há milhares de fatos que me escapam da minha atenção, e gente, como a história da União Soviética é obscura... e, apesar disso, me arrisco a discutir. Não vou julgar quem também quiser se arriscar a tal, pois muitas vezes é o jeito que temos de aprender... mas ninguém tem o direito de simplesmente ser puramente arrogante e negar uma discussão por julgar, em sua própria cabeça, que o outro não tem instrução suficiente e se esconder atrás da cortina dos argumentos clichê que escondem falta de conhecimento. 

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