Um dos males que aflige grande parte das pessoas hoje em dia é a chamada falta de tempo. As mudanças de poucos anos pra cá faz com que todos façam tudo na pressa, múltiplas coisas ao mesmo tempo, sem parar um segundo para relaxar... e pensar. Ou simplesmente descansar, dormir direito, aproveitar umas poucas horas para um hobby ou uma atividade de lazer. As pessoas andam com todos os compromissos no próprio bolso, sem conseguir ficar sem olhar o celular por mais de alguns minutos, respondendo e-mails enquanto almoçam ou até enquanto andam na rua.
E não tem coisa que as pessoas mais gostam de mostrar do que como são ocupadas e não têm tempo pra nada.
Porém, é complicado dizer que se é uma pessoa mais esforçada só por se enterrar em trabalho. Eu sinceramente acho que sair se ocupando com um monte de coisa que nunca é aquilo que se gosta de fazer é muito perigoso - não tem coisa mais destrutiva que auto-decepção, frustração, ou o sentimento de incapacidade. Fora o estresse, que pode até ter conseqüências na saúde física da pessoa. E, além disso, fazer coisas na pressa sempre comprometem o resultado final, e isso acaba sendo uma escolha entre quantidade e qualidade.
Portanto, não há nada de errado em ter um pouco de tempo livre para cuidar de si mesmo. Claro, não é bom se pendurar em outras pessoas e nunca fazer nada tanto para o outro quanto para si mesmo e todos temos que trabalhar e/ou estudar para que possamos, assim que possível, atingir estabilidade por nós mesmos e cortar o cordão que nos faz, ou fazia, depender de nossos pais. Saber que se sustenta sozinho, que paga o próprio aluguel ou o financiamento da casa própria e pagar as próprias contas pode parecer pra muitos assustador - ainda mais pra adolescentes hoje em dia - mas são os passos necessários para que a pessoa saiba, realmente, cuidar de si mesma.
E por cuidar de si mesma, não quero dizer parecer o cara mais trabalhador do mundo pros amiguinhos do feicibúki e nem ir atrás de um macho endinheirado pra poder se encostar - digo ter consciência da própria saúde, ser responsável pelos próprios atos e saber organizar o próprio tempo, já que o ser humano tem tão pouco. Resumindo, é não sair fazendo besteira.
Pra ser muito sincera, acredito que são muito poucos por aí que realmente nunca tem tempo de nada. Meu pai está com três empregos, trabalhando com dezenas de propostas até no domingo, mas sempre reserva um tempo pra treinar, que é o que ele mais gosta, e um pouquinho pra falar com os filhos - mesmo acordando as 5 da manhã praticamente todos os dias. Tenho uma amiga que ficou tão mal de estresse com o tanto de trabalho que estavam colocando nas costas dela como presidente do dormitório internacional que teve que organizar o próprio tempo e conseguiu viajar de volta pra casa em Istambul num final de semana pra arrumar as idéias em paz. Tenho uma amiga que praticamente cuidou da própria mudança e reforma do apartamento em cima da hora com a ajuda de poucas pessoas sem deixar de lado suas obrigações e ainda, de vez em quando, reservava um tempinho para amigos. E tem quem se vira pra ajustar um fuso horário cretino e não perder contato com amigos, como eu mesma e pessoas que conheço já fizeram.
O que alguns chamam de falta de tempo, eu chamo de organizar prioridades.
Eu já pedi carinhosamente que lembrassem de mim enquanto eu estivesse geograficamente afastada. Sempre recebi recusas por causa da tão conhecida falta de tempo, que a ocupação é muita, e isso não me incomodaria tanto... se não fosse pelo fato de que, pra me pedir pra me deslocar até o centro da cidade pra comprar coisas que nem são do meu interesse sem receber o dinheiro adiantadamente ou pra pedir pra usar o meu próprio cartão de crédito no paypal, todo mundo arranjava tempo.
É por isso que acredito que a questão de falta de tempo está sempre ligada à questão de prioridades. A pessoa reservava o tempo dela para pedir favores, pesquisar itens na internet e, consequentemente, esperar dinheiro emprestado, mas não para bater papo. E eu, de boa vontade na primeira, segunda e uma quase terceira vez, não fosse por uma infecção que peguei no tornozelo que fazia andar a coisa mais dolorosa da face da terra, andava até o ponto de ônibus e ia fazer o que me fora pedido, mesmo que tivesse trabalhos para fazer ou preferisse simplesmente ficar em casa fazendo as minhas coisas e cuidando do meu lazer. E isso comparando o nível de prioridade de conversa x artigos de luxo e formação acadêmica x boa vontade de me deslocar. Alguém identificou algum pequeno desequilíbrio de sacrifícios?
E quando não aguentei a injustiça e reclamei praticamente explodindo, recebi um e-mail bem mal-educado da pessoa tentando estragar meu feriado e pedindo 'desculpas' sarcásticas por não poder falar comigo, por estar tão ocupada com tudo, isso declarando no começo da mensagem que não estava arrependida de nada... mas pra pedir favor, o tempo sempre existiu. As pessoas esquecem do que lhe é conveniente, ainda mais quando é algo que diz respeito a elas. Empatia zero, diga-se de passagem. Deviam colocar a pobrezinha em perigo de extinção.
Ainda por cima, no mesmo e-mail teve a pachorra de me acusar de mentir quando disse que me importava com ele. Fui mais de uma vez até o centro da cidade de ônibus e a pé andando no mínimo uma hora de ida e volta num vento abaixo de zero pra passar constrangimento na loja, já que não sou bem a cliente esperada. Mais de uma vez torrei 80 dólares que só ia ver de volta meses depois sem nem cobrar a taxa do cartão em vez de ficar quietinha na minha casa e até consumi o tempo e a boa vontade da minha mãe numa das últimas... e tem a PACHORRA de dizer que não me importo!? Sendo que disse já disse que se importava comigo mas pedir favor tá na frente de bater papo na fila da importância?
Não sei descrever o nível de emputecimento que me consumiu no momento que li aquilo.
Mas sei que não me importo mais, mesmo. Achei importante citar aqui porque, como disse, prefiro ser sincera e dar a cara a tapa em vez de tirar sarrinho pelas costas no feicibúki trancado para um grupo limitado, mas a real é que passou tanto tempo durante o qual eu me fiz não pensar nisso por ter coisas mais importantes (que iam decidir meu futuro) pra fazer, que grande parte da raiva já passou.
Falando em feicibúki, imagino se esse fulano já disse pra uma certa pessoa o que andou falando sobre ela e o namorado em vídeos escondidos por lá. Antes de eu perguntar o mesmo, claro, porque depois quem tem cu, tem medo.
Engraçado... é que agora não sinto mais nada. É estranho como, depois que a idéia amadurece um peso é levantado dos ombros quando falam na sua cara que você não precisa mais se importar e sua barreira protetora fica mais dura. A única coisa que sinto é gratidão pelas poucas pessoas que já vieram ter comigo uma conversa civilizada depois de um problema em vez de acusar e atacar, com a intenção de machucar, mesmo.
Como uma amiga minha já disse uma vez: quando as pessoas se afastam por muito tempo, aprendemos a viver sem elas. É só questão de tempo, e é triste, mas assim é o ser humano e seu ciclo de relacionamentos.
A conclusão disso tudo é: cada um arranja tempo para o que lhe é importante. E essas prioridades muitas vezes podem dizer muito sobre alguém. Há quem prefira sacrificar sua própria vontade pelos outros, e há aqueles que, numa relação, vêem primeiro o que será mais vantajoso para si e depois se ocupam de cobrar as obrigações do outro - nunca as próprias. Alguém precisa editar a definição de ser humano na wikipedia e adicionar a palavra 'egoísta' ali no meio, porque sim, no fundo, todos somos um pouco e, quando não, aprendemos a ser depois de ver como funciona.
E as escolas precisam ensinar o que é empatia, pois desconfio que muitos nem saibam o que essa palavra significa.

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